Marcello José Abbud, diretor da Ecodust Ambiental, aponta que não existe uma única crise de resíduos sólidos urbanos no Brasil. Existem milhares delas, uma para cada município, com suas próprias dimensões, limitações e possibilidades de resposta. Soluções padronizadas e de escala única nunca funcionaram para o Brasil, e o futuro da gestão de resíduos municipais deve ter a capacidade de oferecer respostas tecnológicas e institucionais adequadas ao perfil de cada município.
Compreender essa diversidade é o ponto de partida para qualquer estratégia séria de gestão de RSU. Acompanhe a leitura e identifique o que pode ser aplicado à sua realidade.
Como a realidade dos RSU varia conforme o porte dos municípios brasileiros?
A distribuição dos municípios brasileiros por faixa populacional revela um país profundamente assimétrico na capacidade de gestão de resíduos sólidos urbanos. Quase metade das cidades tem até 10.000 habitantes, perfil marcado por baixa arrecadação, equipes técnicas reduzidas e dependência quase total de aterros regionais para a destinação final dos RSU. Nesse grupo, estima-se que aproximadamente 1.800 municípios ainda operem com lixões ou destinação inadequada, número que evidencia a dimensão estrutural do problema e a insuficiência das respostas adotadas até hoje.
À medida que o porte populacional aumenta, o quadro melhora gradualmente, mas não de forma linear. Municípios entre 20.000 e 50.000 habitantes são considerados um dos perfis mais estratégicos para implantação de usinas modulares de transformação de resíduos, pois combinam volume suficiente para viabilizar a operação com demanda por soluções que os aterros convencionais já não conseguem suprir adequadamente. Para Marcello José Abbud, essa faixa representa uma janela de oportunidade concreta para a adoção de tecnologias de inovação ambiental que aliam eficiência técnica, viabilidade econômica e impacto ambiental positivo.
Consórcios intermunicipais: uma saída estratégica para municípios de pequeno porte
Entre os modelos de resposta mais eficazes para municípios de pequeno porte, os consórcios intermunicipais se destacam pela capacidade de gerar escala sem exigir que cada cidade construa sua própria infraestrutura de tratamento de RSU. Ao compartilhar usinas de tratamento de resíduos, sistemas de coleta e equipes técnicas, municípios vizinhos conseguem acessar soluções que seriam financeiramente inviáveis de forma individual. Esse modelo está previsto na legislação brasileira e já apresenta casos de sucesso em diversas regiões do país, especialmente no Sul e no Sudeste.

Como sugere Marcello José Abbud, os consórcios também facilitam a adoção de tecnologias mais avançadas de valorização de resíduos, pois o volume consolidado de RSU torna projetos de biodigestão, compostagem em larga escala e geração de energia a partir de resíduos economicamente viáveis para cidades que, individualmente, não teriam massa crítica suficiente. A regionalização da gestão de resíduos é, portanto, uma estratégia de acesso à inovação ambiental, não apenas de racionalização de custos.
Tecnologias modulares revolucionam a coleta de resíduos sólidos urbanos em municípios brasileiros
Uma das transformações mais relevantes dos últimos anos no setor de resíduos sólidos urbanos foi o surgimento de tecnologias modulares e escaláveis, capazes de operar com eficiência em municípios de pequeno e médio porte sem exigir a escala mínima dos grandes projetos de recuperação energética. Usinas termomagnéticas, sistemas de decomposição termomagnética de resíduos e plantas modulares de tratamento térmico controlado representam essa nova geração de soluções, projetadas especificamente para realidades em que o volume de RSU é menor, mas a necessidade de destinação adequada é igualmente urgente.
Marcello José Abbud, especialista em soluções ambientais, frisa que a modularidade é o fator que democratiza o acesso à inovação ambiental no setor de resíduos. Quando uma tecnologia pode ser dimensionada para o volume real de RSU de um município de 30.000 ou 50.000 habitantes, ela deixa de ser privilégio das metrópoles e passa a ser uma alternativa concreta para cidades que até hoje só tinham o aterro sanitário como opção. Esse avanço tecnológico muda profundamente o mapa de possibilidades da gestão de resíduos municipais no Brasil.
Municípios brasileiros precisam de estratégia, suporte e tecnologia adequada
Como resume Marcello José Abbud, enfrentar a crise dos resíduos sólidos urbanos no Brasil exige mais do que recursos financeiros. Exige estratégia, capacidade técnica, modelos institucionais adequados e acesso a tecnologias de tratamento compatíveis com a realidade de cada município.
O caminho já existe: consórcios intermunicipais que geram escala, instrumentos de financiamento que precisam ser melhor aproveitados, tecnologias modulares que viabilizam soluções locais e uma nova geração de gestores públicos comprometidos com a valorização de resíduos e a superação definitiva dos lixões. O que falta, em muitos casos, é dar o primeiro passo com convicção e planejamento.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
