A decisão do Banco Central de recomeçar o projeto do zero em 2026 expõe os limites técnicos e regulatórios de uma das apostas mais ambiciosas da política financeira brasileira.
O Brasil foi um dos primeiros países do mundo a anunciar e desenvolver ativamente uma moeda digital de banco central. O DREX, nome adotado em 2023 para o Real Digital, chegou a ser apontado como referência global em inovação financeira. Mas em novembro de 2025, o Banco Central tomou uma decisão que surpreendeu boa parte do setor: desligou a plataforma piloto e anunciou que o projeto seria reconstruído do zero. O que isso revela sobre os desafios reais de digitalizar o dinheiro em um país da complexidade do Brasil?
O projeto DREX fazia parte da estratégia do Banco Central para criar uma moeda digital de banco central alinhada a iniciativas semelhantes em outros países. Baseada na tecnologia blockchain Hyperledger Besu, a plataforma buscava integrar o ecossistema financeiro digital brasileiro, unindo Pix, Open Finance e tokenização de ativos. A ambição era legítima. A execução encontrou barreiras que não estavam no mapa inicial. Revistaespeciais
Da promessa ao recuo técnico
O DREX nasceu com uma proposta transformadora: criar um dinheiro programável, capaz de executar contratos automaticamente, registrar garantias e democratizar o acesso ao crédito. O entusiasmo era justificado. Países como China, Suécia e Bahamas já avançavam em seus próprios projetos de CBDC, e o Brasil, com uma infraestrutura digital financeira invejável graças ao Pix, parecia em posição privilegiada para liderar.
O DREX foi anunciado como o embrião de uma moeda digital de banco central, com o objetivo de tokenizar ativos, permitir liquidação instantânea e modernizar o sistema financeiro nacional. A alteração de foco foi de uma moeda digital para o público amplo para uma plataforma de tokenização de ativos e operações financeiras entre instituições, em versão restrita. Essa mudança de escopo não foi planejada desde o início. Foi uma resposta às limitações encontradas nos testes. Nordi Investimentos
O Banco Central concluiu que o sistema não atendia plenamente aos requisitos de segurança cibernética e privacidade regulatória. O ponto mais sensível envolve o tratamento de dados pessoais dentro da blockchain, já que cada carteira digital seria vinculada a uma identidade real, como CPF e nome do usuário. Num país com a LGPD em vigor e um histórico recente de vazamentos de dados em escala, esse é um obstáculo que o BC não poderia simplesmente ignorar. Seu Crédito Digital
O que o Brasil aprende com esse processo
O desligamento da plataforma não precisa ser lido como fracasso. Em desenvolvimento tecnológico, especialmente em infraestruturas financeiras nacionais, pilotos existem exatamente para revelar o que não funciona antes de colocar o sistema em produção. A fase 2 do piloto DREX cumpriu seu papel, como esperado pelo BC. As tecnologias foram avaliadas pela perspectiva do regulador e, segundo seus critérios, dentro de um escopo bastante amplo e ambicioso, demonstraram necessidades de evoluções para atendimento completo, disse André Carneiro, CEO da BBChain, empresa envolvida no projeto piloto. Exame
O que o processo revelou é que construir uma infraestrutura digital pública de alta complexidade exige mais tempo, mais testes e mais humildade técnica do que os cronogramas iniciais geralmente preveem. O novo desenho proposto pelo Banco Central sugere uma abordagem mais cautelosa e estruturada: foco em casos de uso, prioridade para privacidade e segurança, e tecnologia escolhida após validação. É uma virada de postura que pode parecer modesta, mas é exatamente o tipo de governança que projetos dessa magnitude exigem. Nordi Investimentos
O Brasil também aprende com a movimentação do mercado privado. Enquanto o BC redefinia sua estratégia, bancos e fintechs não esperaram. Desenvolveram suas próprias soluções de tokenização, stablecoins e produtos de crédito digital. Isso mostra que a demanda existe, a tecnologia existe, e o setor não está parado esperando o Estado definir cada detalhe.
Privacidade e inclusão: as duas promessas que ainda precisam ser cumpridas
Dois temas centrais do projeto original do DREX permanecem como promessas não entregues: privacidade das transações e inclusão financeira. A primeira depende de uma solução tecnológica que o BC ainda não encontrou. A segunda exige que o sistema, quando chegar ao público, seja acessível para quem não tem conta bancária ou acesso a smartphones de última geração.
Uma das metas do DREX é desenvolver um super aplicativo financeiro onde cada cidadão poderá visualizar, em um só lugar, todos os seus ativos, abrindo espaço para que pequenos empreendedores e autônomos usem recebíveis como garantia ao solicitar empréstimos com melhores condições. Essa é uma promessa com potencial real de impacto social, especialmente num país onde o custo do crédito ainda é um dos maiores obstáculos ao empreendedorismo. Treeunfe
O DREX não é uma questão só de tecnologia. É uma questão de como o Brasil quer organizar seu sistema financeiro nos próximos vinte anos. A reconstrução do projeto a partir de 2026, com uma abordagem mais focada e menos dependente de tecnologias ainda imaturas, pode ser o começo de algo mais sólido do que o entusiasmo inicial prometia.
Fontes: Nord Investimentos – BC desliga DREX | Exame – Drex será desligado | Seu Crédito Digital – Por que o BC suspendeu o DREX | Treeunfe – DREX como funciona
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
