Elmar Juan Passos Varjão Bomfim esclarece que as enchentes que paralisaram cidades inteiras, o calor recorde que transformou centros urbanos em ilhas de concreto e a fila histórica por moradia digna expuseram uma verdade desconfortável sobre o jeito como o Brasil cresce: a maior parte dos problemas urbanos nasce muito antes de a primeira viga ser erguida. Ela nasce na prancheta, no instante em que se decide o que construir, onde e de que forma. É justamente aí que o planejamento de empreendimentos deixou de ser uma etapa burocrática e passou a funcionar como instrumento de transformação das cidades.
O recorte é atual e vem acompanhado de números difíceis de ignorar. Mais de 85% dos brasileiros vivem em áreas urbanas, e boa parte dessa expansão ocorreu sem coordenação entre quem aprova, quem financia e quem constrói.
O resultado se repete em todo canto: bairros que alagam a cada temporal, avenidas que travam no horário de pico e conjuntos habitacionais entregues a quilômetros de qualquer linha de transporte. Cada um desses gargalos cobra um preço alto, pago em recursos públicos, em horas perdidas no trânsito e na saúde da população.
Planejar antes de erguer paredes muda o destino de um bairro
Um empreendimento não chega sozinho a um terreno. Ele traz consigo carros, pessoas, demanda por água, esgoto, energia e coleta de lixo. Quando essas variáveis entram tarde na conta, a vizinhança absorve o impacto na forma de congestionamento, sobrecarga de redes e valorização desordenada que acaba expulsando antigos moradores. O planejamento sério inverte essa lógica: mede a capacidade real do território antes de definir a densidade do projeto, e não o contrário.
Esse cálculo ganhou peso à medida que prefeituras passaram a exigir contrapartidas urbanísticas mais rigorosas e estudos de impacto de vizinhança mais detalhados. Para Elmar Juan Passos Varjão Bomfim, CEO da André Guimarães Engenharia e Infraestrutura, isso significa trazer a discussão sobre mobilidade, saneamento e áreas verdes para o início do cronograma, e não para a fase final de licenciamento. Antecipar conflitos no papel custa uma fração do que custa corrigi-los com a obra já em andamento.
Como a infraestrutura verde se encaixa no planejamento de um empreendimento?
A pergunta deixou de ser teórica depois que eventos climáticos extremos viraram rotina no calendário brasileiro. Infraestrutura verde é o conjunto de soluções que usa a própria natureza para resolver problemas de engenharia: jardins de chuva que absorvem o escoamento, pavimentos permeáveis que reduzem alagamentos, telhados vegetados que amenizam o calor e corredores arborizados que devolvem conforto térmico às ruas.

O ponto sensível é que essas soluções funcionam muito melhor quando pensadas desde o começo. Reservar espaço para uma bacia de retenção, orientar as edificações para aproveitar a ventilação natural ou dimensionar a drenagem para chuvas mais intensas são decisões de projeto, não de acabamento. Encaixá-las depois costuma ser caro, ineficiente ou simplesmente impossível dentro do que já foi construído.
Os entraves que ainda travam o planejamento urbano no Brasil
Elmar Juan Passos Varjão Bomfim considera que, apesar do avanço, o caminho está longe de ser tranquilo. A fragmentação das normas entre municípios, a lentidão dos licenciamentos e a falta de dados confiáveis sobre o território tornam o planejamento mais difícil do que deveria ser.
Existe ainda um desafio cultural. Boa parte da cadeia produtiva foi formada na lógica de entregar metros quadrados no menor prazo possível, e mudar esse hábito exige convencer investidores de que planejamento não é despesa, e sim redução de risco. Esse argumento ganha força quando um temporal destrói o que foi mal projetado, mas perde tração assim que a memória do desastre começa a esfriar.
A oportunidade que surge com dados, tecnologia e parcerias
Elmar Juan Passos Varjão Bomfim sugere que é aqui que o cenário fica mais promissor. Ferramentas de modelagem digital, sensoriamento e análise de dados geográficos permitem simular o comportamento de um empreendimento antes mesmo de ele existir: como a água vai escoar, como o trânsito vai reagir, quanta sombra um edifício vai projetar sobre o vizinho.
A integração entre setor público e privado é outra alavanca poderosa. Parcerias bem desenhadas permitem que a infraestrutura urbana (vias, saneamento, espaços públicos) acompanhe o ritmo dos empreendimentos, em vez de correr atrás do prejuízo. Quando município e iniciativa privada planejam juntos, a cidade cresce de forma mais ordenada e o investimento rende mais para os dois lados da mesa.
A década que vai redesenhar as cidades brasileiras
Elmar Juan Passos Varjão Bomfim conclui que os próximos anos vão definir se as cidades brasileiras conseguem crescer sem repetir os erros que hoje cobram caro em enchentes, congestionamentos e desigualdade. O planejamento de empreendimentos é uma das peças centrais dessa equação, porque é nele que se decide, lá no início, se um projeto vai somar à cidade ou apenas ocupar espaço nela.
