Depois de desligar a plataforma piloto em novembro de 2025, o Banco Central redefine a rota do Real Digital com foco em tokenização e novos casos de uso.
O Banco Central do Brasil fez uma escolha difícil no fim de 2025: desligar a plataforma que sustentava o projeto DREX e recomeçar do zero. Para quem acompanhava de perto o desenvolvimento do Real Digital, a notícia gerou dúvidas imediatas. O projeto foi cancelado? O Brasil vai ficar para trás na corrida global por moedas digitais? A resposta é mais nuançada do que parece, e entendê-la exige conhecer o que de fato falhou, o que foi aprendido e para onde o BC pretende ir.
O Banco Central comunicou oficialmente aos consórcios participantes do piloto, em reunião realizada em 4 de novembro, que a plataforma seria desativada e que uma nova fase começaria em 2026, com revisão total da infraestrutura. Não se trata de abandono, mas de uma reformulação profunda. A principal mudança foi o desligamento da plataforma baseada na Hyperledger Besu, uma rede de sistema distribuído que usa a mesma tecnologia das redes blockchain de criptomoedas. A decisão marcou o encerramento de um ciclo de testes que durou mais de dois anos e envolveu dezenas de instituições financeiras e fintechs brasileiras. Nordi InvestimentosExame
O que não funcionou na plataforma anterior
O DREX, desde sua concepção, ambicionava ser muito mais do que uma versão digital do real. A ideia era criar uma infraestrutura capaz de tokenizar ativos, automatizar contratos e integrar o sistema financeiro nacional em um único ambiente programável. Para isso, o BC escolheu a Hyperledger Besu, uma rede blockchain permissionada com acesso restrito a instituições autorizadas. Na prática, os testes revelaram problemas sérios que inviabilizaram o avanço.
Após dois anos de testes, o Banco Central concluiu que o DREX, em sua configuração atual, não atendia plenamente aos requisitos de segurança cibernética e privacidade regulatória. O ponto mais sensível envolve o tratamento de dados pessoais dentro da blockchain: cada carteira digital seria vinculada a uma identidade real, como CPF e nome do usuário. Isso coloca o projeto em rota de colisão com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), um obstáculo regulatório de peso. Além disso, a criptografia homomórfica testada nos pilotos aumenta a complexidade computacional em 50 vezes, tornando inviável para operações em tempo real. Seu Crédito DigitalMix Vale
A segunda fase do piloto avaliou 13 cenários distintos, incluindo tokenização de imóveis, recebíveis e até títulos ligados à descarbonização. Os relatórios indicaram 80% de sucesso em simulações de privacidade, mas apenas 60% em escalabilidade com a tecnologia DLT. Esse número foi suficiente para convencer o BC de que era necessário mudar de caminho antes de avançar para o uso público. Mix Vale
A nova direção: tokenização sem blockchain (por enquanto)
A reformulação do DREX não elimina o conceito central do projeto, mas muda radicalmente como ele será implementado. A nova fase sem a tecnologia blockchain focará na reconciliação de gravames, ou seja, situações em que ativos são usados como garantia em transações, com o objetivo de facilitar esse tipo de operação. Gravames são as restrições jurídicas sobre bens dados em garantia, como imóveis financiados ou veículos em leasing. Hoje, consultar e registrar essas informações exige contato manual com cartórios e sistemas dispersos, um processo lento e custoso. Exame
A reformulação posiciona o DREX como infraestrutura para tokenização de ativos, transformando bens como imóveis, veículos ou títulos em unidades digitais transferíveis. A ideia é resolver primeiro os gargalos concretos do mercado financeiro, como a reconciliação de garantias, e só depois ampliar para serviços ao público em geral. Com o desligamento da infraestrutura atual, o BC dará início a uma nova etapa definindo primeiro os casos de uso — como integração com Pix, Open Finance e mercados de ativos tokenizados — e depois decidirá qual arquitetura tecnológica empregará, com uso de blockchain não descartado para o futuro. DeFinNordi Investimentos
Bancos e fintechs que participaram dos pilotos não saem de mãos vazias. A ABBC informou que seus associados possuem tecnologia capaz de integrar o caso de uso desenvolvido — Cédulas de Crédito Bancário tokenizadas — a outras redes, mesmo após a desativação do ambiente atual. O mercado privado, por sua vez, começa a se mover por conta própria. Portal InfoDoT
O que esperar para o cidadão e para as empresas
Para quem esperava usar o DREX no dia a dia em breve, a perspectiva mudou. Em agosto de 2025, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, confirmou que a primeira versão estará disponível em 2026, mas será apenas usada internamente por bancos, cartórios e corretores, com foco na reconciliação de gravames, não no uso popular imediato. A chegada ao cidadão comum segue para uma fase posterior, ainda sem data definida. Cartão Carrefour
Para as empresas, especialmente aquelas que dependem de crédito com garantias reais, o cenário é de atenção. O mercado brasileiro de tokens de ativos reais cresceu 2.249% em um ano, atingindo R$ 2,876 bilhões em janeiro de 2026. Esse movimento indica que, independentemente do cronograma do BC, a tokenização já é uma realidade no mercado privado. Paralelamente, o Banco Safra lançou sua própria moeda digital pareada ao dólar americano, e o Itaú estuda emitir uma stablecoin atrelada ao real, dependendo do avanço da regulamentação. DeFinPortal InfoDoT
O DREX não morreu. Passou por um processo de maturação que muitos projetos tecnológicos de grande escala precisam atravessar antes de atingir o público. A pergunta não é mais se ele vai acontecer, mas quando e de que forma chegará ao cotidiano financeiro dos brasileiros. Acompanhar cada nova fase desse projeto é acompanhar a transformação do dinheiro no Brasil.
Fontes: Exame – O que vai acontecer com o Drex em 2026 | Nord Investimentos – BC desliga DREX | DeFin Insights – DREX e tokenização | Seu Crédito Digital – Por que o BC suspendeu o DREX | Portal InfoDoT – BC desliga DREX
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
