Acordo entre bancos públicos, cooperativas e registros de imóveis mostra como a agenda do DREX pode chegar a operações do cidadão.
O DREX voltou ao centro das discussões sobre a modernização financeira brasileira após um movimento anunciado nesta semana envolvendo Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, cooperativas de crédito e o Operador Nacional do Sistema de Registro Eletrônico de Imóveis (ONR). As instituições firmaram um Acordo de Cooperação Técnica para desenvolver uma infraestrutura baseada em blockchain voltada à digitalização da jornada do crédito imobiliário, com testes previstos para março de 2027. A iniciativa é relevante para a agenda política e regulatória do DREX porque transforma em aplicação prática uma das principais propostas associadas à moeda digital do Banco Central: conectar dinheiro e ativos tokenizados em processos financeiros mais integrados. (InvesTalk)
O ponto que interessa ao cidadão, porém, é entender o que esse movimento realmente significa. O projeto não representa a criação imediata de imóveis digitais nem significa que o DREX estará disponível para uso cotidiano da população. Trata-se de uma etapa de construção de infraestrutura, na qual bancos, cooperativas e registradores precisam definir padrões de integração, segurança, rastreabilidade e funcionamento antes de uma eventual adoção em escala. (Imprensa BB)
Por que o crédito imobiliário virou uma peça importante da agenda do DREX
O avanço anunciado em 4 de setembro coloca o mercado imobiliário entre os exemplos mais concretos de como a tokenização pode modificar processos financeiros. Banco do Brasil, Caixa, Ailos, Sicoob, Sicredi e Unicred passaram a trabalhar com o ONR na criação de uma infraestrutura digital capaz de integrar instituições financeiras e registros de imóveis. Os testes estão previstos para começar em março de 2027, depois de uma etapa de detalhamento das jornadas de negócio e dos modelos de integração entre os participantes. (InvesTalk)
A relação com o DREX está justamente nesse modelo de integração. O Banco Central desenvolveu o projeto da moeda digital brasileira para criar uma infraestrutura capaz de operar ativos e serviços financeiros digitais, utilizando tecnologias de registro distribuído e contratos inteligentes. Na segunda fase do Piloto Drex, o BC permitiu que participantes desenvolvessem e testassem seus próprios serviços, incluindo casos relacionados a ativos imobiliários, sempre considerando requisitos jurídicos e de privacidade. (Banco Central do Brasil)
O relatório integrado do Banco Central de 2025 mostra que a segunda fase do piloto avançou justamente nessa direção: participantes passaram a criar e testar serviços próprios dentro da plataforma, enquanto ativos que não eram diretamente regulados pelo BC também foram incluídos nos experimentos, com acompanhamento de outros órgãos. Entre os casos de uso selecionados estavam transações com imóveis, envolvendo Banco do Brasil, Caixa e cooperativas. (Banco Central do Brasil)
Na prática, a tokenização significa representar digitalmente determinados direitos, contratos ou ativos dentro de uma infraestrutura tecnológica. Isso não elimina automaticamente os registros legais existentes nem transforma um token em substituto da matrícula de um imóvel. O objetivo do projeto anunciado agora é construir uma forma mais integrada de compartilhar informações e executar etapas da jornada de crédito, com potencial para reduzir processos manuais e aumentar a rastreabilidade das operações. (BitNotícias)
O que essa movimentação muda para o cidadão e para a política financeira
Para quem pretende financiar uma casa ou apartamento no futuro, a principal expectativa não é receber “DREX” diretamente na carteira, mas encontrar processos financeiros mais integrados. Uma infraestrutura capaz de conectar bancos e registros pode, em tese, reduzir a quantidade de etapas necessárias para validar informações, registrar operações e liberar recursos. Ainda assim, os testes precisam demonstrar se os ganhos tecnológicos realmente serão convertidos em redução de tempo, custos e burocracia para o consumidor. (Imprensa BB)
É nesse ponto que o tema também ganha dimensão política. O DREX não é uma criptomoeda privada nem um projeto independente do Estado: trata-se de uma infraestrutura desenvolvida pelo Banco Central dentro do sistema financeiro brasileiro. Por isso, questões como governança, privacidade, segurança, participação de diferentes reguladores e definição de responsabilidades são tão importantes quanto a própria tecnologia. O próprio Banco Central já apontou que as soluções de privacidade testadas anteriormente ainda precisavam amadurecer para garantir todos os requisitos jurídicos aplicáveis. (Banco Central do Brasil)
A participação de instituições públicas como Banco do Brasil e Caixa acrescenta outra dimensão ao debate. Como bancos de grande presença nacional, eles podem funcionar como importantes participantes na experimentação de novas infraestruturas financeiras, enquanto cooperativas ampliam o alcance potencial da tecnologia para diferentes segmentos do sistema financeiro. O acordo com o ONR também mostra que a transformação digital não depende apenas dos bancos: registros e outras instituições precisam conseguir conversar entre si para que a tokenização tenha utilidade real. (Imprensa BB)
Para o cidadão, entretanto, é importante separar expectativa de realidade. O Banco Central informa que o Drex continua sendo desenvolvido e testado em ambiente restrito, sem uma data específica de lançamento para uso geral da população. Portanto, o avanço anunciado nesta semana deve ser entendido como parte da construção de uma infraestrutura financeira, e não como o lançamento do real digital para consumidores. (Banco Central do Brasil)
O que ainda precisa acontecer antes de o DREX chegar ao cotidiano
O projeto imobiliário previsto para 2027 será relevante justamente porque permitirá testar se a tecnologia consegue funcionar fora de demonstrações controladas. Antes disso, os participantes terão de definir os modelos de integração, as jornadas de negócio e as soluções tecnológicas necessárias para conectar diferentes sistemas. A interoperabilidade será fundamental, porque uma infraestrutura financeira digital perde parte de sua utilidade se bancos, cooperativas e registradores não conseguirem trocar informações de maneira segura e padronizada. (InvesTalk)
Outro ponto decisivo é a segurança jurídica. Tokenizar uma etapa de uma operação imobiliária não significa simplesmente colocar documentos em uma blockchain; é necessário determinar quais informações podem ser digitalizadas, quem pode acessá-las, como ocorre a validação dos dados e qual é a relação entre o registro digital e os documentos reconhecidos pela legislação. Essa preocupação explica por que o envolvimento do sistema de registros de imóveis é estratégico para o desenvolvimento de soluções associadas ao DREX. (BitNotícias)
A privacidade também permanece entre os principais desafios. Como o DREX poderá envolver transações financeiras programáveis e diferentes participantes, o desenho da infraestrutura precisa conciliar rastreabilidade com proteção de dados e sigilo financeiro. O Banco Central já estabeleceu a necessidade de avaliar soluções de privacidade durante a evolução do piloto, demonstrando que a questão não é apenas técnica, mas também regulatória e institucional. (Banco Central do Brasil)
O significado político do avanço, portanto, está menos em uma mudança imediata no dinheiro usado pelos brasileiros e mais na construção gradual de uma nova camada do sistema financeiro. Se os testes conseguirem demonstrar segurança, interoperabilidade e eficiência, aplicações como crédito imobiliário poderão se tornar exemplos concretos de utilização de ativos tokenizados. Isso ajudaria a mostrar onde o DREX pode complementar sistemas já consolidados, como o Pix, em vez de simplesmente substituí-los.
O cenário desta semana reforça que o futuro do DREX será definido por uma combinação de tecnologia, regulação e decisões institucionais. O acordo envolvendo BB, Caixa, cooperativas e registros imobiliários representa um passo nessa direção, mas ainda não significa que o cidadão terá acesso imediato ao real digital ou poderá comprar imóveis usando uma carteira DREX. O principal resultado esperado é verificar se uma infraestrutura baseada em blockchain consegue tornar operações complexas mais integradas, rastreáveis e eficientes. Para quem acompanha a evolução da moeda digital brasileira, a próxima etapa será observar os testes previstos para 2027 e os resultados concretos obtidos antes de qualquer expansão para o público. (Imprensa BB)
Fontes utilizadas:
- Banco Central do Brasil — Piloto Drex
- Banco Central do Brasil — Drex (Real Digital)
- Banco Central — Segunda fase do Piloto Drex
- Banco do Brasil — BB, Caixa e cooperativas firmam acordo para tokenização do crédito imobiliário
- Times Brasil — BB, Caixa e cooperativas planejam usar blockchain no crédito imobiliário
- BB, Caixa e cooperativas — cobertura sobre tokenização do crédito imobiliário
- Banco Central — estudo sobre Real Digital e tokenização da economia
