Para empresários do setor, como Fredy da Silva Gonçalves Bento, o Fredy Restrito, CEO da Litoral Mobilidade, os números oficiais contam apenas parte da história. Segundo a Fenabrave, 11.587 motos elétricas foram emplacadas no Brasil de janeiro a agosto de 2026, alta de 85% sobre o mesmo período do ano anterior.
O avanço é expressivo, mas ainda representa menos de 1% das motos vendidas no país. Para entender para onde a mobilidade elétrica caminha, é preciso olhar também para o que a estatística não alcança e para quem está, de fato, puxando a demanda. Leia a seguir e saiba mais.
O trabalho chegou antes do lazer
A alta recente não veio principalmente de quem quer passear no fim de semana. O motor do crescimento é o uso profissional, em especial o do entregador de aplicativo, que roda muitos quilômetros por dia e sente no bolso cada litro de gasolina economizado. Para quem faz dezenas de entregas por dia, essa economia se transforma rapidamente em renda.
Com esse público, ganharam espaço modelos de negócio que não existiam no mercado de motos a combustão, como o aluguel semanal com troca de bateria em estações. Quando o veículo passa a ser ferramenta de trabalho, o critério de compra muda: custo por quilômetro, disponibilidade de peças e tempo parado na oficina pesam mais que o design.
A parte que o emplacamento não conta
Scooters limitadas a 32 km/h e bicicletas elétricas com pedal assistido dispensam placa, conforme a regulamentação do Contran. Por isso, não aparecem nos números de emplacamento, embora ocupem boa parte das vitrines das lojas especializadas. Isso inclui modelos muito parecidos, na aparência, com scooters de maior porte.
Esse mercado sem registro é grande o bastante para sustentar operações inteiras. A Litoral Mobilidade, empresa conduzida por Fredy Restrito, comercializa centenas de veículos elétricos por mês, entre scooters, bicicletas e motos elétricas. Medir o setor apenas pelos emplacamentos, portanto, subestima seu tamanho real.
Formalização como tendência
Desde 1º de janeiro de 2026, os ciclomotores elétricos precisam de placa, registro e condutor habilitado. A exigência criou atrito no curto prazo, mas tende a produzir um efeito duradouro: compradores mais informados e lojas obrigadas a explicar o que vendem.
Para o varejo, isso desloca a concorrência. Preço baixo continua importando, porém quem oferece orientação correta, garantia e assistência técnica ganha vantagem sobre vendedores ocasionais e anúncios sem estrutura por trás. Fredy Restrito salienta que, na prática, o balcão da loja passa a funcionar também como ponto de orientação sobre regras de trânsito, documentação e uso seguro.
Redes regionais com ambição nacional
Grande parte do varejo de mobilidade elétrica ainda é formada por lojas independentes, cada uma com seu fornecedor e sua forma de atender. À medida que o mercado cresce, essa fragmentação abre espaço para redes capazes de padronizar produto, preço, pós-venda e treinamento, como costuma acontecer em segmentos do varejo que amadurecem.
A Litoral Mobilidade segue essa direção. Com centro de distribuição próprio, importação e mais de 40 colaboradores, a empresa prepara uma rede de franquias de alcance nacional, e Fredy da Silva Gonçalves Bento considera esse projeto parte da profissionalização do mercado de mobilidade elétrica no Brasil, com atenção à qualidade dos produtos e à estrutura de pós-venda.
Uma cidade que muda pelas bordas
Mudanças na mobilidade urbana, de acordo com Fredy da Silva Gonçalves Bento, raramente começam pelo carro de passeio. Elas costumam aparecer primeiro nas bordas do sistema: no entregador que troca a moto a combustão, no estudante que vai de scooter até a faculdade, no trabalhador que encurta o trajeto até a estação.
Em última análise, entende-se que quando esses pequenos deslocamentos se tornam elétricos, o efeito se acumula em menos ruído, menos emissão local e novas demandas por ciclovias, estacionamentos e pontos de recarga. O dado da Fenabrave mostra o começo dessa transformação, e a parte que ele não registra sugere que ela já está mais avançada do que parece.
